Engendras quem – é preciso habitar – para poder se habitar o mundo

A instalação sonora e visual “Engendras quem – É preciso habitar – se para poder habitar o mundo” parte de um trabalho que Claudia Sehbe realiza desde agosto de 2017, o “309 cavalos” faz refletir sobre diferentes dimensões de liberdade e sobre a real existência do livre arbítrio. Esta instalação propõe o encontro consigo mesmo como o mais importante encontro. Na filosofia de Deleuze encontramos a construção perceptiva da negação da existência do livre arbitro e da aceitação das influências externas que recaem sobre nós. Na epigenética aprendemos que repetidos estímulos executados por tempo suficiente são capazes de mudar o nosso código genético individual, fazendo parte da in/evolução humana, geneticamente falando. Muitas vezes pensamos ser transgressores, livres ou fora do padrão, mas é apenas uma resposta a um pequeno território que assimilamos como mundo, que é balizado social, sentimental e historicamente. Nós apenas como frequentadores e não criadores de territórios. Ainda em Deleuze, o pensar é desterritorializar. E dada tamanha força de cada território particular, com suas também individuais percepções de mundo, o encontro com o outro, a alteridade, nos é sugerido como a única possibilidade para a desterritorialização. A vulnerabilidade em deixar – se tocar.

O território se precipita em sua própria dissolução.

Mas esta instalação propõe o encontro consigo mesmo como o mais importante encontro. Proponho a percepção de liberdade, do desterro, de potência, como uma simples habitação interna. Uma aceitação de margens, de contorno. A percepção de abismos individuais. Um [re]conhecimento da multiplicidade de pessoas e mundos que engendramos em nós – e só em nós.

 

Nosso pé de tomate cereja

talvez o tamanho do espaço das linhas que sustentam as asas do mundo, dos sonhos, do nosso pé de tomate cereja.

talvez o tamanho das linhas que sustentam as asas das mariposas sejam uma espécie de grau zero ou um sol que ofusca os olhos da mulher que chora na sacada de kollwitzstrasse

você me diz

— escuta esse som da água circulando pelas asinhas

é, o sistema nervoso é mesmo um campo lindo

um tipo de floração que voa circular

você me fala sobre a mulher da sacada, ela chora lágrimas de mariposas

eu posso falar de mim agora

você me diz que que devemos voltar ao Funkhaus

e que três aves marias é apenas mais uma forma de contarmos o tempo

a mulher

as lágrimas de mariposas

você me diz que ela está pregada ao meu estômago

o teto das narinas nas veias e os dedos dos pés ao limite dos olhos que choram

ela toma acento no teu dentro e debaixo da figueira os cachos dos cabelos estão a trançar cócegas nas mariposas você me fala sobre a mulher que chora na sacada de kollwitzrasse

os pequenos pássaros

a migração até,

todo ano a fragilidade das grandes coisas

 

 

Oberhoz, 19.06.18, Berlim

Sobre uma linha que liga o horizonte ao sussurro indeciso das cores — é preciso romper essa casca de espaço, quebrar a compoteira

entre um antes e um depois um ser vivo flutua entre objetos como alga

e cava com as próprias mãos a terra da pele seca até chegar ao sangue de todos os animais vivos de dentro do corpo. mantém aberto o que o avanço do tempo costuma fechar

porquê os cavalos tem dentro deles o deixar aqui , o ir ali

porque os cavalos tem uma pata em cada tempo

porque os cavalos tem uma pata sobre cada ombro humano

os dedos e unhas cavam a terra da pele seca até chegar ao sangue de todos os animais vivos de dentro do corpo. uma mulher carrega um cavalo. o cavalo carrega centenas e milhares de formigas no lombo robusto

as formigas carregam na barriga todo o peso do mundo

o coice do cavalo noturno machuca as costas da mulher que o carrega e carrega o tempo entre as orelhas

as unhas cavam a terra da pele seca até chegar ao sangue de todos os animais vivos de dentro do corpo

os cavalos desistem, mas pesam na respiração da mulher, na respiração de um barco

imagina a vida assim : um barco, que respira sobre o mar da carne do sangue de todos os animais vivos de dentro do corpo

a mulher respira pedras, coices e patas

o cavalo desiste

as formigas carregam na barriga todo o peso do mundo

as costas racham

os ossinhos dos sonhos quebram de manhã

revivem como nervuras noturnas

e isto é um ciclo,

a luz acende quando

 

17.06.18

kollwitzstrasse 51

quando vejo atras da espessura da água dos teus olhos não sei o que é esse nó e nem do que é feito. metades herméticas e toxicas de ti, quase um ninho um emaranhado, felpas, invasões de aços pontiagudos, uma existência faminta, canibal, áspera. A língua mesma a lamber a nuca por entre abacates, café por entre rachaduras. uma espécie de envergadura construída cresce rasgando as estruturas do corpo.

então tu pensa que é outro: uma escama de peixe, um gosto distante na boca, uma cabana.

mas são os mesmos cães habitando obscenamente teu peito.

são os mesmos cães habitando obscenamente  teus dedos. são os mesmos cães habitado obscenamente tua perna, latindo pelos joelhos e pelas cavidades curvas, habitando as coxas.

são os mesmos cães habitando obscenamente teu umbigo, como latem os cães. habitam e latem, percorrem a sinuosidade dos teus quadris. nas juntas, latem nas feridas abertas, latem.

habitam tua voz e os tornozelos, latem.

habitam os dedos das mãos, as unhas, latem. habitam e latem no peito, na barriga , latem. nos ombros , nas costas cansadas, latem.

a nuca, habitam sim a nuca, correm e latem pelas orelhas. latem garganta e peito, como latem!

latem, latem , latem.

amores e cães são animais sem cabelos, não é possível puxá – los é preciso comê – los.

quando vejo atrás da espessura da água dos teus olhos não sei o que é este nó e nem do que ele é feito

onde os cães se alimentam

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