Contraponto pictórico de ​​Paula Klien

Consideramos um objeto pelo aspecto ou por um olhar prospectivo derivado de um saber do olho. Nessa dialética, matérias líquidas resultam em intrigantes e instigantes epidermes pictóricas como lexus da representação, na qual identificamos um potente e provocativo ponto de passagem de um passado a um vir a ser da contemporaneidade.

A arte de ​Paula Klien combina a simplicidade com a pintura pura. Suas obras de maiores dimensões possuem características monumentais e exemplificam a polivalência de seu estilo. Carrega o “extremo” no nanquim, tanto quanto em seu padrão artístico. Sua esfera da arte é o inconsciente: seus signos são um prolongamento do seu interior.

Seu trabalho exige introspecção e entrega. O silêncio, a transcendência e a espiritualidade são fios condutores inspiracionais na abrangente visão de mundo pautada no conceito oriental de aceitação da transitoriedade. ​​Representa uma visão centrada na concepção estética da beleza do “imperfeito, impermanente e indefinível” repleta de signos do tempo.

A arte vislumbra um caminho de transformação que a permite transmutar o familiar em exótico, o orgânico em utópico; em vez de nos mostrar o usual, ao invés de apresentar paisagens tradicionais expedidas, Klien nos mostra o ímpar e incomum. Assim, por meio de uma alquimia silenciosa, tudo pode mudar. No universo da artista​​, todo objeto encontra seu lugar. Com uma alquimia ligeira, ela domestica o exótico e transforma o lugar-comum em linguagem visual do abstracionismo lírico proveniente do expressionismo abstrato.

Embora pura em sua forma, a arte de Paula Klien escapa a interpretações simples. Ao invés de oferecer conteúdo didático, ela nos incita a permanecer em movimento em nossa percepção e pensamento. Admirar sua arte, nesse sentido, implica estar alerta a um  mergulho pela dinâmica espacial, por algo que nos seduz pelo identificável e misterioso.

Consequentemente, identidade, transformação, desconstrução e descontextualização tornam-se conceitos-chave na obra da artista e a revelação de um fático e promissor protagonismo artístico plástico contemporâneo é inevitável.

O nanquim há muito tem sido o material mais importante em suas obras. Ao enquadrar essas paisagens abstratas como símbolos oníricos em construções geométricas de madeira, a artista acentua seu elemento de pintura, bem como suas experimentações lúdicas. Obras como ​Pranto e Baba, ​Tunes ou ​Correntezas nos levam a perceber que a visão mnemônica e a capacidade de imaginar a realidade são partes essenciais de nossa sensorialidade.

Encontramos a singularidade de seu estilo no resultado da abstração informal e livre, que mistura o dripping, action painting e repetições gestuais de respingos e lavar do nanquim, material milenar utilizado na pintura tradicional chinesa e constante em todas as obras.

Como ​Pollock​​, Paula Klien rompe o tradicionalismo dos cavaletes e pinta no chão. Na polivalência do seu ato de pintar, observa-se o gesto corpóreo sendo parte do corpo pictórico​​. Pingos escorrem formando traços harmoniosos e revelam na superfície da obra a riqueza das cicatrizes pictóricas que não conseguem ser apagadas​. A arte parte do zero: do pingo de nanquim que deixa cair na lona ou papel, do lavar do fluído negro, do deslizar fruído ferramental e raras, porém precisas pinceladas, elabora um primor plástico.

Além de​ Pollock como referência de pesquisa, consideramos também o coeficiente artístico de Franz ​Kline e seu intenso e sensível diálogo paradoxal do preto sobre branco e seus tons, sobretons e semitons; de ​Duchamp quando diz que “não faço como quero, faço como posso”, aludindo ao imprevisível fazer que o nanquim permite.

Falando de acaso, citamos ​Braque​​: “é o acaso que nos revela a existência.” O trabalho de Paula Klien emerge o invisível no visível em belas representações iconoclastas não óbvias de verdade plástica absoluta. A artista liberta as amarras da forma e transforma matérias aquosas em belas e ​onipresentes​ paisagens abstratas. Percebe-se o acaso até certo limite.

Entretanto, na compreensão de belo não se restringe a uma verdade preestabelecida que, como os mitos, justifica o mundo de maneira universal. O objeto artístico também está ligado ao momento histórico em que foi produzido. Há algo que faz com que a obra permaneça e nos encante, mesmo com o passar dos séculos. E por que permanece? Para discutir permanência e resistência da obra ao tempo, trago ​Agamben e seus importantes conceitos de contemporâneo e de profano. Ao contrário do que tradicionalmente se compreende, as obras que se eternizaram não são aquelas que seguem à risca o status quo. A obra que perpetua é, normalmente, a que rompe, de alguma forma, com o que está instituído, que beira o inverossímil, mas de qualidade realista.

Na compreensão do sagrado, a obra de arte veio a ser, por um longo período, um objeto voltado à simples pura contemplação. Mas, o espaço, o tempo e corpo estético expositivo invadem, evadem e interagem numa experiência tônica da atemporalidade que proporciona alimento à alma de quem o devora. Com isso, não se encontra nas obras presentes multiversos de linguagens, mas um universo de linguagem singular resultante da unimultiplicidade de uma visão ​hegeliana do “todo que tudo abrange e nada tem fora de si.” Essas percepções nos levam a outro nível de realidade, à lógica do terceiro incluído. O invisível torna-se visível e o vazio torna-se vazio preenchido de espírito sensível elevado à zona do sagrado na arte.

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